Olá leitores e leitoras, como estão? Meu nome é Helen Criss tenho 36 anos e sou mãe, esposa, filha, dona de casa, professora e dançarina de dança do ventre, enfim, tudo mais que uma mulher possa ser. Hoje vou continuar falando sobre a Juju e algumas de vocês podem me perguntar, como assim latinha amassada de supermercado? Vou explicar vocês…


Após tomarmos a decisão de entrar com o processo de adoção, iniciamos alguns conflitos familiares com pessoas que eram contra, isso me deixou insegura, eu estava fazendo a coisa certa? Vinha o medo de não dar conta de um quarto filho, dela ser especial, de não saber como seriam as necessidades dela, medo de ser empolgação ou apenas carência, medo de abr

ir mão dos meus estudos e me arrepender, medos, medos, medos, tantos medos…

Daniel e eu conversamos e ele me disse: Flor, você é uma mãe maravilhosa e eu confio muito em você,sei que dará conta como sempre deu, afinal, se ela tivesse nascido de nós não seria diferente. Estaremos juntos como sempre estivemos e faremos o melhor por ela como fazemos para os outros. Foi a força que eu precisava.

Quando fomos à instituição para falar de nosso interesse nela, o assistente social e a psicóloga disseram: A Yasmin?

Eu disse: sim, eles perguntaram novamente: A Julia Yasmin, aquela menininha no balancinho?

Eu surpresa com aquele questionamento disse: Sim, mas porque o espanto?

Eles disseram: Porque ela é como uma latinha amassada de supermercado, todos olham e ninguém quer. Vocês para ela e para nós são um presente de Deus,  pois o destino dela aqui é crescer, definhar, atrofiar e morrer…

Fiquei impressionada com o que eu ouvi e jamais esqueci aquelas palavras, então respondi: Não se depender de mim, ela não terá a vida perfeita, mas farei por ela o melhor que eu puder e darei a ela amor, proteção e família.

Como era algo fora do comum (alguém adotar uma criança com uma patologia extremamente rara, enquanto tantas pessoas escolhem crianças como se escolhesse os detalhes da raça de seu pet), eles resolveram entrar com o processo pela instituição nos apontando como família adotiva, pois isso adiantaria o processo. Nesse meio tempo, descobri que crianças como ela nem existem no cadastro de adoção, pois como ninguém quer, ela apenas se tornaria apenas um número a mais no cadastro de crianças para adoção.

Após 2 meses, fomos fazer uma entrevista no fórum na vara da criança e do adolescente com uma psicóloga. Ela fez muitas perguntas e entre elas ela me perguntou: Você sabe que crianças como ela não vivem muito, como você pretende lidar com isso?

Eu disse: Eu não tenho patologia e você também não, você sabe o quanto vai viver? Ou eu? O tempo de cada um não pertence a nós, e independente do tempo que ela tenha de vida, sejam 15 dias, 15 meses ou 15 anos, eu darei a ela uma família, carinho e algo que ela nunca teve… amor. Ali se encerrou a conversa, pois ela percebeu que eu estava certa do que queria e que não estava brincando de boneca onde você pega, brinca e depois quando não quer devolve para guardar, então ela pediu para aguardarmos uns dias, pois ela faria um relatório e enviaria ao juiz e quando saísse a sentença seriamos comunicados.

Ali começou um processo de angustia gigante com a espera. Tínhamos receio de preparar o enxoval porque não sabíamos se o juiz nos daria a tutela dela, mas se desse como seria se não tivéssemos nada preparado?

Muitas pessoas perguntavam se eu sabia sobre a mãe biológica dela, mas a única coisa que eu sabia era o nome do hospital que ela nasceu, sabia que ela nasceu prematura e que a mãe abandonou logo após o nascimento. Eles encontraram a avó materna que não quis cuidar dela por declarar não ter condições financeiras e principalmente por ela ser deficiente. Ela teve problemas respiratórios quando nasceu, desenvolveu uma pneumonia e lutou muito para viver, sempre foi uma guerreira aos meus olhos.

Muitas pessoas julgavam a mãe e a avó pelo abandono, mas de coração eu nunca julguei. Elas me deram um presente que não podem imaginar o quão valioso é. Eu sempre digo que um filho não nasce de uma barriga, pois qualquer uma pari, filho nasce do coração da mãe, ela não tinha nascido do coração dessa mãe, mas o meu estava prontinho para recebê-la.

Esperar por um sim do juiz, traz a mesma ansiedade de esperar pelo trabalho de parto. É muito igual, querer sentir em seus braços, preparar toda a casa para a chegada dela, a espera é algo surreal, fora o medo de não dar certo, que é o mesmo medo do bebe não nascer perfeito.

Um belo dia exatamente as 16:45 hs recebo a ligação tão esperada, o juiz me deu a guarda provisória dela, aquela noticia traz o mesmo sentimento de quando a bolsa se rompe, a emoção tomou conta de mim e o choro foi inevitável, meus filhos e minha sobrinha que estava em casa se assustaram e ficaram em pânico sem saber o que aconteceu e eu disse a eles: a Julia vai nascer, o juiz disse sim… O choro foi coletivo, nos abraçamos e naquele momento partilhávamos do mesmo sentimento de alegria. Mas como nenhum trabalho de parto é fácil rsrsrs…, o fórum fechava às 17 hs e só poderíamos pegar o documento para  buscá-la as 13 hs do dia seguinte, ou seja, muitas horas e noite sem dormir em trabalho de parto.

No dia seguinte fui cedo para a casa da minha mãe para deixar as crianças e irmos ao fórum que era bem longe.  Buscamos o documento e fomos direto para a instituição, meu coração mal se aguentava de tanta emoção. Quando chegamos já no fim de tarde com um ventinho bem frio, peguei o documento, entreguei para a diretora e disse: vim buscar minha filha. A espera enquanto ela preenchia os documentos de liberação era o mesmo aperto que sentimos quando estamos no pré-parto e somos levadas para a sala de parto. Quando ela disse: vai buscar sua filha, minhas mãos tremiam e meu coração parecia um fervo de escola de samba. Cheguei ao quarto, a cuidadora abaixou a grade do berço onde ela dormia de bruços bem encolhidinha, me aproximei já com as lagrimas escorrendo pelo rosto, a aconcheguei em meu colo, dei um beijinho em sua testa, ela me olhou com aquele olhar doce e eu disse: Vem minha princesinha, vamos para casa…

A enfermeira disse: é inacreditável que ela tenha conseguido um lar. Eu amorosamente respondi: Um, lar, uma mãe, um pai, irmãos, tios, avós, uma família, agora essa latinha amassada de supermercado vai pra casa, porque nós a olhamos, a queremos e agora sim a vida dela vai começar…