Quando cheguei com o Théo em casa eu tinha uma vaga ideia de como seriam os primeiros meses com o bebê, pois algumas coisas já estavam previstas. Eu sabia que ficaria sozinha com ele a maior parte do dia por conta do trabalho do meu esposo, sabia que não haveria visitas por motivo da pandemia da COVID-19, sabia que não teria uma rede de apoio muito presente por este mesmo motivo.

Durante toda a gestação eu busquei me preparar para este momento. Fiz organizações práticas para facilitar a rotina diária, e acreditava que seria o suficiente para passar bem pelo período do inicial do pós parto. O que eu não imaginava, e ninguém havia me contado, é que junto com a recuperação física, haveria também uma reestruturação emocional, e é aí que a coisa pega.

Nos primeiros dias veio a insegurança de cuidar daquele serzinho tão pequeno que dependia de mim pra absolutamente tudo. Junto o mesmo pacote veio um misto de sentimentos e sensações que jamais havia sentido antes, e ainda não sei descrever com exatidão.

Desde o inicio tive que aprender a lidar com a rotina maluca de sono do Théo. Ele não foi, e ainda não é, o tipo de bebê que dorme a noite toda. Desde que ele nasceu eu não sei mais o que é dormir duas ou três horas seguidas sem interrupção.

Os dias se tornaram longos, e as noites intermináveis. E justamente o momento do pôr do sol, parte do dia que

que eu sempre admirei muito e amava assistir, se tornou meu maior tormento.

Nos primeiros meses eu acreditava que era só um cansaço de fim de tarde, como aquele que a gente sente depois de um dia de trabalho, que logo eu me acostumaria com rotina e não sentiria mais essa tristeza no fim da tarde.

Então esperei ansiosamente o período que todos me falavam que eram os piores: os primeiros 45 dias, os primeiros 3 meses, 6 meses. E foi nessa espera que aos poucos fui sentindo (mais uma vez) que o puerpério não é só os 45 dias do resguardo. Que as conversas que tínhamos nas salas do Bellymamãe (rede de apoio que me acolheu e ajudou muito), onde outras mães falavam que esse reestabelecimento emocional pode se prolongar por uns 2 anos é muito real.

Hoje, um ano e quatro meses depois que o Théo nasceu, a angustia a cada entardecer permanece. Tem dias que consigo contornar com mais tranquilidade, dias que ele dorme no fim da tarde, ou que consigo me distrair com alguma coisa, um filme ou um desenho e por acaso não percebo que a noite chegou.

Mas tem dias que é quase insuportável, dias que eu quero pular essa parte e ir logo para a noite, dias que eu pego meu filho e saio andando com ele pelas ruas na tentativa de atropelar o fim da tarde, dias que fico plantada no portão esperando alguém chegar pra  talvez amenizar minha solidão, dias que quando o pai dele chega eu nem espero ele entrar em casa e entrego o bebê na porta da sala, e quero sair correndo pra algum lugar onde eu não veja o sol ir embora.

Eu não imaginava que com tanta demanda que a maternidade traz, haveria mais essa angustia do entardecer. A todas as mães que também sentem isso: você não está sozinha, e não, você não ama menos ou é menos mãe por sentir isso. É mais um desafio do puerpério.

E a solidão, também é bem real. Maternar é solitário, independente de rede de apoio presente, os sentimentos e sensações que precisamos construir enquanto nos construímos como mães, é muito íntimo, muito interno. Não é uma solidão física que se resolva estando com pessoas. É um luto, é a despedida da mulher de antes, ao mesmo tempo em que se celebra a chegada de um novo ser.

O que eu tenho aprendido ao longo deste ano é que é preciso sentir. Tentar esconder, não dar atenção, fingir que está tudo bem, não ajuda. Então agora eu sinto. Aprendi que sentir é como ter que chegar do outro lado de um túnel, não há outro caminho a não ser passando por ele.  As vezes é dolorido, angustiante, um gatilho de ansiedade, mas eu permito que o sentimento venha, pois este é o caminho pra ele ir embora.


Olá, eu sou a Poliana K F Verissimo, sou professora Bellykids e Bellymamãe e Doula. Estes textos são relatos pessoais de vivências que eu nunca havia imaginado que aconteceria desta forma, por isso sempre iniciam com a frase: “Eu nunca imaginei que…”. Trago através deles meu olhar diante de fatos que aconteceram comigo e me pegaram se surpresa ou não foram como as expectativas. Assim como muitas coisas em nossas vidas, a gestação e maternidade são um universo muito propício para acontecimentos que jamais imaginamos, mas ainda assim são cheio de aprendizado e muito amor.