Olá leitores! Espero que estejam gostando de conhecer a Julia através dos meus olhos e do meu coração.

Uma criança especial exige muito de nós, e não digo só no fato de cuidados pessoais, mas no sentimento. Talvez pelo abandono, ter o sentido da fala prejudicada, e ter passado os primeiros meses de sua vida sem amor, ela é muito apegada a mim, e mesmo convivendo com 3 irmãos, familiares, sendo amada por todos, fazendo socialização na escola, terapias, passeios no parque, enfim… esse apego nunca mudou com o tempo e ela é um grudinho até hoje.

Tive um período financeiro complicado onde sai para trabalhar fora, nessa fase todos estudavam de manhã e a tarde ficavam em casa com minha mãe. Eu trabalhava com home care acompanhando pacientes psiquiátricos, era um trabalho bem exigente, na verdade a enfermagem por si só é exigente. O Matheus, Lívia e o Pedro compreendiam, mas a Julia não entendia minha ausência, porque ela só via a mamãe quando acordava e a noite? Um dia, minha mãe disse que ela estava ficando muito quietinha a tarde toda, que chegava da escola, andava pela casa e deitava em minha cama e cheirava meu travesseiro. Ela sentia a Julia triste e até mesmo depressiva. Cortava meu coração, mas eu precisava daquele emprego. Eu estava numa fase onde seria promovida, tinha um salário bacana e minha intenção era melhorar a renda e contribuir para uma melhor qualidade de vida da família. Mas Juju não sabia entender isso.

Um dia me ligaram da escola falando que ela estava com febre, avisei minha mãe e ela foi buscá-la. Verificou a temperatura dela em casa e estava com apenas 37,8 (o que para os médicos nem caracteriza febre).

Naquela noite meu irmão foi em casa e o Dan estava saindo para me buscar no trabalho. Ele resolveu ir junto e levar a Ju, minha mãe achou melhor não, já que ela estava febril, mas ele resolveu levar mesmo assim para ela passear. Foi a melhor decisão da vida, pois não saberíamos a peça que a vida nos pregaria. Saí do trabalho as 20hs, e lá estavam eles me esperando, entrei no carro e ela estava dormindo e apenas um pouco quentinha, fiz um carinho nela e partimos para casa. 5 minutos depois Julia da um grito como se acordasse assustada e começou a balançar as mãozinhas como fazia quando chorava, coloquei a mão nela e tentei acalmar dizendo: “Calma bebê, mamãe esta aqui!”. Percebi que esse balançar era constante e não passava, tinha algo errado. Pedi para parar o carro, mas Daniel disse: “Agora não dá!” (estávamos no meio da Avenida Brasil), eu insisti, dizendo que ela estava passando mal e ele conseguiu encostar. Quando desci e tirei-a do carro, ela estava convulsionado já com a língua enrolando e os olhos virados. Falei pra ele voar pro hospital que ela esta convulsionando, mas ele não sabia chegar ao hospital. Meu irmão naquele momento foi um anjo e disse: “eu sei onde fica o instituto da criança!” então ele começou a guiar o Daniel que dirigia como um bravo socorrista. Abracei-a e tentava acalmá-la, mas ai veio a segunda fase da convulsão, o relaxamento…  após ele, uma desesperadora parada cardiorrespiratória. Minha filha estava morta em meus braços, não tinha respiração, não tinha pulso e parecia uma boneca de pano em minhas mãos. Ali o desespero tomou conta de nós, os 3 desesperados com aquela situação tentando chegar ao hospital. Não sei como consegui, mas naquele momento mesmo chorando em desespero, respirei fundo coloquei a mãe de lado e a profissional tomou conta, deitei ela, abri as vias aéreas e comecei a ressuscitação cardiopulmonar, 30 compressões para 5 respirações, fiz uma, duas, três vezes, e nada… ali apelei para toda fé que existia em mim e em meio ao procedimento e o desespero eu disse: “Meu Deus, não estou pronta para te entregar minha filha, por favor não leve ela de mim!” “Princesa, volta pra mim, eu preciso de você, se você voltar eu prometo que eu paro tudo e fico com você, eu deixo a enfermagem, por favor, volta!” , ao terminar as compressões ela deu um leve soprinho, verifiquei e ela tinha pulso e respiração novamente. Naquele momento chegamos ao hospital, carro buzinando, alta velocidade e pisca alerta ligado, os médicos já sabiam que era emergência e estavam esperando. Desci do carro correndo com ela nos braços e a cada canto tinha alguém me guiando por onde ir com ela, até chegar na sala onde os médicos a aguardavam. Entreguei-a ainda desacordada nas mãos deles e a enfermeira perguntou: “Mãe o que aconteceu?”. Naquele exato momento a profissional sumiu e a mãe tomou conta de mim, o choro desesperado me impedia de pronunciar uma única palavra, a enfermeira me acalmou, respirei fundo e expliquei o que houve. Após alguns minutos ela retomou a consciência e começou a chorar, meu coração quase explodia ao ter minha filha viva. Ela fez exames, ficou de observação e a conclusão do que aconteceu até hoje é um mistério. Ela teve uma parada cardiorrespiratória por causa da exaustão que o coração teve durante a convulsão, a convulsão por um pico febril, pois a temperatura dela era de 38°C, e a febre ninguém sabe de onde veio, pois todos os exames estavam normais, não tinha nada errado.

Concluímos que tenha sido emocional pelo quadro depressivo que ela vinha apresentando.

Após ter minha filha de volta tomei a difícil decisão de encerrar minha carreira na enfermagem. Sofri muito com a escolha, mas eu tinha uma promessa a cumprir. Nada no mundo nunca estará a frente da minha família, por mais difícil que tenha sido deixar a profissão que eu escolhi e amava. Após essa turbulência controlamos qualquer sinal de febre, 37,5 já medicamos e observamos.

Deixei a enfermagem, voltei a ser apenas do lar e foi a melhor decisão que tomei, pois hoje tenho ela todos os dias sorrindo e me enlouquecendo. Costumo dizer que a enfermagem foi apenas uma ponte para eu chegar ate ela e eu cruzaria mil vezes se fosse preciso, só para ter ela comigo .