Olá amigos e leitores, como estão?

Mais uma vez me apresentando sou a Helen, mulher multi e professora de BellyMamãe.

Contei aqui pra vocês, 2 partes dessa linda história de amor e renuncia que escrevemos dia após dia com a Julia. A primeira parte – “Amor ou loucura?”, e a segunda parte  –“ Latinha amassada de supermercado”, ambos os textos aqui no blog do BellyMamãe. Hoje vamos continuar a 3ª parte dessa resumida historia.

No momento em que a apeguei tão encolhida naquele berço e acolhi em meus braços me senti completa. Sentia a mesma sensação daquele primeiro beijinho que damos em nosso bebê ainda sujinho de parto envolto num lençol onde realmente a nossa vida começa a mudar.

Naquele fim de tarde estava frio e a instituição a liberou apenas como estava, camiseta de manga longa, calça de algodão tipo pagãozinho e meia, sem ceder que fosse um pequeno cobertor, então Daniel tirou a blusa e a cobriu para aquecê-la.

Saímos de lá e o Dan me perguntou: e agora?

Eu disse: Agora precisamos comprar o básico até ver o que faremos. O medo era porque não tínhamos nada preparado, afinal não tínhamos a certeza se a adoção seria concedida. Saímos com ela de lá com a roupa do corpo e sem nada. Passamos no mercado e compramos fralda, lenço umedecido, leite e mamadeira. Tínhamos um cartão de credito com 300 reais disponíveis, não dava para fazer muita coisa, mas dava para começar (sempre tive muita fé), então fomos a uma loja de bebê e compramos: 2 conjuntinhos de soft, 4 camisetas de manga curta, 4 camisetas de manga longa, 4 calças, 4 pares de meias, 3 shortinhos, fralda de pano, um sapatinho e ,claro, um lacinho de cabelo.

Fomos para a casa da minha mãe onde todos a aguardavam com muita ansiedade. A Ju foi super acolhida pela minha família e dava para ver nos olhinhos dela o quanto ela estava feliz em fazer parte da nossa família.

Comuniquei todos os amigos a chegada dela e a comoção em ajudar foi total. A Julia em 1 semana tinha tudo; berço, carrinho, cercado, cômoda, enxoval que não cabia no guarda roupas, um amigo doava as fraldas mensalmente, outro ajudava com o leite, ganhou mantas feitas com muito amor, a Julia estava aprendendo a ser amada.

Mas vieram os desafios, a Julia tem sensibilidade ao toque e por isso na instituição eles a isolavam e diziam: “ela tem sensibilidade ao toque e não gosta que mexe com ela”. Com isso ninguém se aproximava dela e ela ficava sempre sozinha em seu mundinho. logo, ela não aprendeu a receber carinho, pois passava muito tempo sozinha. Apelidamos de bebê não me toque, porque ela realmente não deixava. Pentear seu cabelo era uma novela, ela girava deitada na cama para não tocar na cabeça dela, ela chorava com qualquer demonstração de carinho, não aceitava caricias, nem beijos, nem que mexesse em seu cabelo, tocar em sua delicada mão para carinho, era uma dificuldade gigante, mas eu sempre insistia e falava pra ela o quanto era bom receber carinho, que não era ruim, era apenas algo diferente que ela não conhecia, mas que iria ter muito dali pra frente. Ela sempre me olhava profundamente quando eu falava e eu sentia que ela me entendia. Eu insistia nos beijos, abraços, amassos, apertos, mas entendia os limites dela que foram se quebrando com o tempo.

Eu havia feito o curso de shantala na gestação do Pedro e a massagem foi crucial para a aceitação dela ao toque, carinho, calma e para a diminuição da atrofia que ela tinha no braço esquerdo, pois  ela chupava  2 dedos e passava 90% do tempo com eles na boca. Tínhamos um bebe de 1 ano e 5 meses apenas com equilíbrio de pescoço por incrível que pareça. É difícil dizer e não entrarei em detalhes, mas ela sofreu muita negligência na instituição. Comecei o trabalho intenso com médicos, fisioterapia, shantala e muita paciência.

Descobri que nem o exame do pezinho a instituição havia pegado. Começamos do zero toda busca de tratamento. Ela relutou muito a tudo, mas em 3 meses ela sentava sem apoio, ficava em pé com apoio, porque nem firmeza nas pernas ela tinha, e já aceitava carinho de quem convivia com ela. Com 6 meses ela iniciou a fisioterapia 1 vez por semana, a Julia chorava muito mas aceitava. Com 3 meses de  fisioterapia ela começou a engatinhar. Não sabia o quanto ela conseguiria aprender, mas com estimulo eu sabia que ela iria longe, pois ela é muito determinada. A geneticista me disse que não tinha como saber o quanto ela iria evoluir, que só o tempo poderia dizer, então me esforcei muito para estimular diariamente e ela ter condições de evolução (Esse estimulo faço ate hoje).

O nome dela era Julia Yasmin, na instituição ela era chamada de Yasmin, mas percebi que ela não gostava, quando chamávamos de Julia ela olhava com sorriso, mas ao chamar de Yasmin ela ignorava e eu não entendia o por que.

Uma vez resolvi levá-la a instituição para visitar seus amiguinhos, mas a Julia se agitou e chorou muito parando apenas quando entramos no carro para ir embora, tamanho era o medo de novamente ser abandonada. Foi ai que compreendi  porque ela não gostava de ser chamada de Yasmin, isso remetia memórias dolorosas que ela queria esquecer, então decidimos que ela teria um recomeço e uma vida nova por isso tínhamos a certeza que seu nome seria apenas Julia. Pensamos em mudar, mas além dela gostar no hospital alguém deu esse nome para ela com muito carinho e decidimos manter.

Durante o processo existiram muitas perguntas em relação a adaptação das crianças com ela, mas eles já se consideravam irmãos . Tudo eles faziam com ela, tudo pensavam nela, se eles ganhassem algo logo perguntavam: E o da Julia?

Como eu disse anteriormente, a Julia não foi aceita por todos da família, houve muito desentendimento por conta disso e laços rompidos, mas eu sempre disse que eu não forçaria ninguém a aceita-la, que ela ensinaria as pessoas a amá-la. E assim ela fez com seu olhar doce e gentil, o toque carinhoso, o jeitinho meigo de ser. Para ela conhecer as pessoas ela pega na mão e cheira, ela faz isso com todas as pessoas e ao sentir a energia ela permite a aproximação ou não. A Julia nos ensina todos os dias a ser gratos pela simplicidade das coisas, pela família, pelos amigos, pela saúde, pela vida…

Um dia fomos intimados a comparecer ao fórum, Daniel e eu. Sem saber o que seria, o coração já disparou com medo que alguém da família biológica aparecesse e tirasse nossa pequena de nós.

Quando chegamos e nos foi esclarecido o porque estávamos ali, meu coração disparou, minhas mãos gelaram e meu corpo todo tremia, eu não acreditava no que estava ouvindo, em apenas 9 meses o juiz nos declarou pais permanentes da Julia, recebemos a guarda definitiva dela. Eu mal conseguia acreditar, pois tem processos de adoção que duram anos. Ao assinar o documento oficial o processo seria arquivado e nada nem ninguém contestaria  nossa maternidade e paternidade. Eu não consigo descrever a emoção que sentia naquele momento.

Recebemos um documento para ir ao cartório onde ela foi registrada para mudar a filiação. Naquele momento eu pari minha princesinha, o documento declarava que ela nasceu de mim naquele hospital, que éramos os pais biológicos dela, que estávamos juntas em todos os momentos desde a concepção, que ela nunca sofreu abandono e que nunca esteve sozinha. Esse documento chama-se Certidão de nascimento.

No dia 12 de Dezembro de 2013 fora registrado que:  dia 24 de outubro de 2011, às 01:31 nascera Julia de Lima Santos, filha amada de Daniel Roberto dos Santos e Helen Cristina de Lima Santos.