Hoje quero falar com quem foi duplex assim como eu. Sabe, eu entendo a sua frustração. Ser mãe de gêmeos é uma parada muito frustrante mesmo, pelo menos foi e é pra mim que sonhei por tantos anos em ser mãe, ficar agarrada com a minha cria 24h por dia, naquele movimento único que embalasse junto as nossa almas. Fazer cama compartilhada, dormir e acordar bem agarradinho, amarrar no sling e sentir o poder que o mínimo de autonomia consegue nos trazer. Acolher o choro, pacientemente abraçar e aguardar a calma tomar o ambiente, conectar para além das palavras e do mundo exterior.

Só que não dá né? Não dá porque são dois bebês e as vezes será necessário separa-los para conter o caos. A qualquer momento a tão recente instaurada paz pode vir a ruir porque um deles decidiu acordar e você precisa se transformar em ninja veloz pra conter aquele choro, antes que o mesmo acorde o outro bebê e então você se veja num ciclo infinito com os dois gritando e nadando nas suas lagrimas. Não tem abraço e conversa, não posso carregar os dois bebes no braço e mesmo que eu possa não será confortável o suficiente pra ninguém, não tem como esperar ele se acalmar mas o principal é que acaba sendo necessário deixar alguém pra trás.

Foto acervo pessoal Francine Lebar.

Famigerado momento em que alguém tem que ficar pra trás pela primeira vez. É frustrante ter dois bebês precisando urgentemente da sua atenção e só ter a capacidade de acolher um. É isso mesmo, não tem escolha, se não houver uma rede de apoio imensa que nunca deixe a mãe de gêmeos sozinha com as crias – o que eu digo seguramente ser uma raridade – em algum momento um dos filhos tão pequeno e tão frágil vai ter que esperar o irmão se acalmar pra então ser atendido. Você, a mãe, vai ter que escolher.

É nesse momento que nos perguntamos tantas e tantas vezes o porque de Deus ou o universo (depende do que você crê) fez isso com você. Porque te fez ovular duas vezes, porque fez seu único ovulo se dividir. Porque comigo, porque eu? Quem disse que eu seria capaz?

“E SE FOSSE UM SÓ?”

Precisamos conviver com essa culpa diariamente, por nos sentirmos obrigadas a vivenciar um período de extremo cansaço em pleno auge da fragilidade emocional, por saber que deixar seu filho na frente da tv enquanto acolhe o outro definitivamente não é o melhor tratamento que ele poderia ter, mas muitas vezes é o seu melhor possível e de muitos melhores possíveis a maternidade gemelar é feita, muitos dos conceitos da caderneta da mãe perfeita não se encaixam nos nossos padrões.

A frustração é definitivamente o sentimento controverso com quem minhas filhas mais tem me ensinado a conviver, visto que a frustração é diária por não atender as expectativas irreais que nós criamos e idealizamos enquanto mente e enquanto sociedade. Nos infinitos processos de amadurecimento que venho construindo até aqui, a frustração anda hoje como uma sombra: eu a vejo chegar muito antes dela me bater e trato imediatamente de conversar comigo mesma me questionando o porque daquilo. Com as ideias no lugar, 10 segundos de calma e um pouco de oxigênio no cérebro o sentimento tende a desaparecer ou ao menos a amenizar-se.

Este momento que é um sopro do universo e por mais intenso que seja é curto e único, impossível de ser revivido na mesma proporção e mesma condição. A cada dia nos tornamos pessoas diferentes e todos os dias há um novo sol para levantar e fazer o melhor possível. Uma experiencia tão exuberante quanto a responsabilidade de amar dois pequenos seres totalmente dependentes é arrebatador e acontece em um período tão lacônico que nos ensina mais do que qualquer caminho de dor que tenhamos experimentado viver até então.


Meu nome é Francine Lebar e este é o Da Janela do Duplex! O duplex sou eu que gestei por nove meses duas menininhas hoje com quase 10 meses – Annie no andar de baixo e Bella no andar de cima. Aqui você vai encontrar reflexões, informações e textos sobre a maternidade de maneira geral e especificamente sobre a maternidade gemelar sob meu ponto de vista, a minha janela.