A chegada de um bebê em casa sempre traz transformações significativas, mas o que eu não imaginava é que essas transformações seriam tão abrangentes, tanto no aspecto físico psicológico e profissional. Pra falar sobre isso vou precisar fazer um breve relato de parto.

Como mãe de primeira viagem, mesmo tendo buscado informações sobre o parto, não tive orientações que me dessem alguma clareza de como seria esse dia. O médico que fez meu pré natal me dava orientações típicas de novela: “sua bolsa vai romper e você vai para o hospital”; só muito tempo depois me dei conta de que ele não sabia o processo de um trabalho de parto por ser muito cesarista (que não apoia e não acompanha parto normal).

Eu desde o inicio desejava um parto normal e morria de medo de sofrer violência obstétrica, ou ser levada para uma cesárea sem necessidade, então estudei sobre o assunto e acreditava estar preparada em informações sobre o assunto.

No dia 20 de julho, eu estava com 39 semanas e 4 dias, senti um desejo enorme de dançar uma musica que amo, Lamma Bada, e assim o fiz, sem saber que era a despedida do período da gestação. Na madrugada do dia 21, entrei em trabalho de parto, e foi um susto, porque por mais que eu houvesse lido, assistido documentários sobre o assunto, eu não estava preparada emocionalmente para o que estava acontecendo, senti medo.

Fiquei esperando a bolsa romper, como nas novelas, mas não aconteceu, e eu não sabia bem quando deveria ir para o hospital, senti insegurança em ficar em casa e aquele medo de “passar da hora”.

Sentindo contrações de 3 em 3 minutos, fui para o hospital, mas apesar do curto intervalo, ainda era cedo, cheguei lá com apenas 3 centímetros de dilatação. Então a médica plantonista me prescreveu o soro com ocitocina sintética para estimular a dilatação, e como minha bolsa estava íntegra, ela fez o rompimento artificial.

A equipe que me atendeu foi atenciosa e sempre se mostraram muito solícitas. Foi uma equipe completamente feminina, médica, enfermeiras, fisioterapeuta, psicóloga. Tive liberdade de me movimentar, ficar embaixo do chuveiro me exercitando na bola com bastante privacidade, somente eu e meu esposo.

Então, depois de 10 horas de trabalho de parto (contando desde as primeiras contrações, quando eu ainda estava em casa) chegou a hora, o meu bebê estava nascendo. Fui colocada em posição de litotomia (aquela posição deitada, ginecológica), que é a pior posição para parir, pois não favorece a passagem do bebê.

Durante o período expulsivo, o processo estava lento (de acordo com a médica), e o bebê estava fazendo movimentos de vai e vem, então “para ajudar”, uma enfermeira fez a manobra de kristeller (apoiar o fundo do útero com o antebraço), enquanto a médica me fazia o corte de episiotomia (o famoso pique), e a placenta foi retirada logo após o nascimento.

Quando ele nasceu, não veio direto para os meus braços como eu queria, primeiro fizeram os exames, pesagem, medição, só depois me entregaram meu filho. Consegui ter a hora dourada, pois logo que veio para meus braços já coloquei para mamar, mas não tivemos o pele a pele.

Durante o puerpério imediato, os primeiros 45 dias, fiquei relembrando tudo o que aconteceu, e algo não me parecia certo. Tive meu parto normal, como eu queria, mas eu não entendia porque crescia em mim um sentimento de frustração, de que poderia ter sido diferente.

Demorou um pouco, mas me dei conta de que o que eu mais temia havia acontecido, eu havia sofrido violência obstétrica.

Essa violência se fez presente na aplicação da ocitocina sem indicação de real necessidade, no rompimento artificial da bolsa, na manobra de kristeller (que é uma prática banida pela OMS pois pode causar sérios problemas como f

ratura de costela), na episiotomia (que não há evidências de sua necessidade), no momento que fui colocada para parir em uma posição que não era a que eu queria, na retirada da placenta (ela nasce sozinha alguns minutos após o parto, retirar a força pode causar feridas no útero), na privação do contato pele a pele com meu bebê.

Precisei me reencontrar nessa descoberta, o momento que caí em mim e reconheci isso foi muito difícil, chorei por dias, me culpei pois eu sabia o que era violência obstétrica e não aceitava que não consegui me defender.

Foi um período intenso em sentimentos, mas foi meu ponto de decisão, eu precisava agir, fazer algo para que outras mulheres tivessem experiências de parto que deixam saudades e não tristeza. Eu não imaginava, mas era sim possível ressignificar este momento e todos os sentimentos que surgiram com ele, então mergulhei fundo nessa possibilidade e me tornei Doula.

Este relato de parto, infelizmente é muito comum, poderia ser de qualquer mulher, pois tudo o que relatei está naturalizado na realidade obstétrica do nossa sociedade. Outro ponto importante é que violência obstétrica não é sinônimo de equipe violenta, grosseira, sem empatia. Eu fui atendida por uma equipe super atenciosa e cordial, mas que fizeram uso de procedimentos que se caracterizam como violência.

Se você que é mãe, leu até aqui e se reconheceu em algum desses fatos, não se culpe, pois você também foi vitima de um sistema médico que ainda não consegue abrir mão das intervenções e deixar o protagonismo do parto para a mulher, e que por esse motivo acaba sendo agressivo com dois seres em extrema vulnerabilidade que é a mulher em trabalho de parto, e o bebê que acaba de nascer.

Ah, mas então tudo é violência obstétrica agora? Não. Existem intervenções que são sim necessárias e salvam vidas. A ocitocina por exemplo é muito necessária em casos de parada de progressão ou indução, a posição de litotomia, se for essa que a mulher quer e se sente confortável para parir, está tudo bem! O importante é que a mulher seja ouvida, respeitada e acolhida nesse momento mais significativo da vida que é a chegada de um filho.

Dizem que um filho costuma parir grandes mudanças. E eu nunca imaginei que essas mudanças seriam tão profundas e q

ue me abraçariam tão forte e me colocariam diante de um nova caminho, um novo propósito de vida.

E foi assim que, junto com meu filho, nasceu uma Doula e Professora Bellymamãe, que busca unir as práticas dessas duas profissões lindas com o objetivo de proporcionar a mais mulheres experiências de gestação e parto cheias de amor, acolhi

mento, conexão, empoderamento, e sempre em uma luta incansável para que nenhuma mulher sofra violência obstétrica.

Mulher: a gestação é sua, o parto é seu, você merece que seja como você deseja!

Olá, eu sou a Poliana K F Verissimo, sou professora Bellykids e Bellymamãe e Doula. Estes textos são relatos pessoais de vivências que eu nunca havia imaginado que aconteceria desta forma, por isso sempre iniciam com a frase: “Eu nunca imaginei que…”. Trago através deles meu olhar diante de fatos que aconteceram comigo e me pegaram de surpresa ou não foram como as expectativas. Assim como muitas coisas em nossas vidas, a gestação e maternidade são um universo muito propício para acontecimentos que jamais imaginamos, mas ainda assim são cheio de aprendizado e muito amor.