Disseram que o puerpério dura 45 dias. Está em qualquer guia de maternidade que a puérpera é aquela mulher que pariu até 45 dias atrás. Pobres meros humanos, tão necessitados de estipular datas exatas para suas vivências. Não conseguem olhar com carinho e complexidade para períodos da vida que são de extrema importância e que deixam marcas para sempre.

 

Grávida, eu já dizia a meu companheiro: não mexa com a mulher no pós parto, não contrarie a mulher recém parida, porque a sensibilidade é muitíssimo afetada nesse período. Lembro de me sentir selvagem, de simplesmente não dormir mesmo que minhas filhas dormissem. Estava pronta pra qualquer emergência, muitas vezes estava às 4 da manhã na cozinha, a todo vapor, sentindo necessidade de viver – e a casa em silêncio, com bebês dormindo.

 

O puerpério não dura 45 dias. Ele dura o tempo que tem que durar pra que a mulher processe a separação de seu corpo do corpo do seu bebê. Ele estava dentro, protegido e sendo alimentado sem grandes esforços conscientes. Agora está fora, gritando – de fome, de frio, de calor, de solidão, de medo – e a única coisa que pode acalmá-lo é sentir-se acolhido, como se ainda estivesse fazendo parte de você.

Compartilho com vocês um relato que escrevi quando as meninas tinham 4 meses:

 

“Eu não sei como é pra outras mães, mas identifico no meu puerpério um sentimento muito claro a qual não consigo nomear. Ele é uma mistura de ciúme e de um amor estratosférico, sem cabimento. Ao mesmo tempo que te faz sentir a pessoa mais preenchida do mundo, também traz a culpa. A culpa de não dar conta de tudo, porque quem não dá conta de tudo precisa de ajuda, mas a parte desse sentimento carregada de ciúme não quer ajuda.

 

Uma sensação de que só você pode fazer as coisas como devem ser feitas, e que só os seus braços servem pra acolher aquele choro. Acho eu que esse sentimento tem que ser acolhido e entendido também, ele é digno de ser sentido. Talvez seja um instinto natural o processo de se fechar e se encolher com as crias, sendo o companheiro a única pessoa com quem conseguimos dividir as tarefas igualmente sem sentir que estamos sendo substituídas.

Foto acervo pessoal Francine Lebar.

 

Não significa que seja fácil lidar com isso e que às vezes esse processo não termine em choro ou frustração, porque o caos se instala e você sabe que, com um par de mãos a mais, seria possível contê-lo. Como mãe de gêmeos eu digo: gêmeos é um bagulho muito louco e o puerpério é um bagulho mais louco ainda.

 

Não querer ajuda não significa não precisar de ajuda e este é um processo de desapego muito forte que deve ser respeitado. Afinal elas moraram dentro de mim e não significou absolutamente nada cortarem o cordão umbilical. Esse laço é muito mais profundo e precisa de tempo e paciência pra se desatar. Não é natural pedir pra uma mulher que é fonte de alimento dos seus bebês que ela aceite outras pessoas cuidando deles sem que um conflito interno importante se instale. Estamos exaustas sim, mas talvez seja assim que precisemos estar agora.”

 

Há mulheres que relatam um puerpério de 2 anos, e esta mulher que vos fala diz que seu puerpério durou 7 meses e meio. Já não me sinto tão selvagem, já durmo mais pesado e relaxo quando as meninas estão tranquilas. Não tenho vontade de morder as pessoas que querem pegar elas no colo tentando me ajudar a dar conta. Não quero dar conta de tudo. Consigo pedir ajuda, consigo delegar tarefas, consigo olhar pra frente e ver a ainda distante, mas presente luz. Já não choro todos os dias – ainda que chore às vezes, porque sigo cansada e seguirei exausta por uns bons anos. Mas depois de viver intensamente e me entregar ao meu puerpério, posso me olhar no espelho e dizer: ei, mulher aí dentro, você sabe que isso vai passar.

 

E passa mesmo, pode confiar. Você não vai ficar mergulhada nesse ciclo pra sempre. Você vai aprender a manejar o caos e aos poucos ele vai se tornando mais leve. Esse sentimento que hoje te habita – selvagem, bicho fera pronto pra rosnar pra quem se aproximar – vai ficar guardado numa caixinha dentro do seu subconsciente só pra emergências. A comunicação vai aumentar para além de gritos e choros seus e deles e um dia você vai sentar no sofá apreciando uma xícara de chá e pensar… “ó, passou”.


Meu nome é Francine Lebar e este é o Da Janela do Duplex! O duplex sou eu que gestei por nove meses duas menininhas hoje com quase 9 meses – Annie no andar de baixo e Bella no andar de cima. Aqui você vai encontrar reflexões, informações e textos sobre a maternidade de maneira geral e especificamente sobre a maternidade gemelar sob meu ponto de vista, a minha janela.