Amor ou Loucura?

Olá meu nome é Helen Criss tenho 36 anos e sou mãe, esposa, filha, dona de casa, professora e dançarina de dança do ventre, enfim, tudo mais que uma mulher possa ser. Mas onde entra o amor ou a loucura nessa história?

Para ajudar vocês a entenderem contarei um pouquinho da minha história…


Casei e fui mãe super novinha, me tornei mãe do Matheus aos 17 anos, da Lívia aos 19, do Pedro aos 21 anos.  Sempre amei ter uma família grande.

Após abrir mão de tudo para dar conta de uma maternidade tão precoce resolvi estudar e me profissionalizar (nesse tempo o Pedro já estava com 5 anos).  Prestei a prova da escola técnica de São Paulo, passei e comecei o curso técnico em enfermagem do qual eu me identificava muito, pois sempre gostei muito do ato de cuidar. Dois anos antes eu já havia tentado a pedagogia sem sucesso, pois meu trio ainda precisava muito da minha atenção.

Ao iniciar os estudos me encantava com tudo que aprendia a cada dia e sentia que aquele era o meu mundo, sentia que realmente tinha encontrado profissionalmente o meu lugar…

Vieram os períodos mais esperados (os estágios), botar a mão na massa e realmente fazer tudo aquilo que a teoria me ensinava.

O primeiro campo de estágio foi clínica médica cirúrgica, depois UBS (unidade básica de saúde), centro cirúrgico e o campo que colocaria minha vida do avesso… a pediatria.

Fomos estagiar num abrigo para crianças portadoras de deficiência, sim, um abrigo para crianças deficientes e abandonadas…

Foto acervo pessoal Helen Criss.

Logo quando chegamos para fazer reconhecimento de campo, uma criança me chamou a atenção. Era uma menininha de quase 11 meses com o nome de Yasmin. Branquinha, cabelos bem curtinhos, roupinhas rosa e olhinhos pretos como jabuticaba.  Ela estava em um balancinho num cantinho com seus dedinhos na boca. Tínhamos a regra estabelecida pela instituição de não dar colo para as crianças para não ficarem “manhosas de colo”, mas o que de fato me chamou a atenção foi ela estar um tanto afastada das outras crianças por dizerem que ela tinha sensibilidade ao toque e que não gostava de ser tocada. Como assim?  Pois bem, conhecemos o ambiente, as crianças, a rotina e fomos embora. No dia seguinte a primeira coisa que fiz quando tive uma pausa, foi analisar o prontuário daquela criança. Para minha surpresa, não haviam muitas informações, apenas que nascera prematura, tinha chegado a instituição com mais ou menos  dois meses após sair da UTI e que estava sob investigação de  uma síndrome rara chamada Córnelia de Lange. Claro que ao chegar em casa fui pesquisar a síndrome e descobri que era super rara, acometendo 1 a cada 50 mil crianças nascidas vivas, alto índice de mortalidade por problemas cardíacos, microcefalia, autismo, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor e muitos outros problemas que poderia desenvolver. Ficava impressionada a cada site e página que eu abria para pesquisar a respeito daquela síndrome tão rara.

No dia seguinte para minha surpresa, fui escalada para cuidar dela (pois a professora que designava as tarefas e a criança ou as crianças que seriamos responsáveis naquele dia), assim que cheguei já tinha um presentinho me esperando, fralda de cocô e banho rsrsrs… , quando a retirei do berço, ela me olhou tão profundamente que eu me arrepiei inteira e percebi que uma conexão havia se formado, ela não olhava para ninguém, não interagia com ninguém e de repente ela fixou os olhos em mim de uma forma que parecia falar com meu coração. Analisei cada detalhe dela tão característico a síndrome, mãos e pés pequenos, orelhas baixas, cabeçinha característica da microcefalia, sobrancelhas unidas, mesmo sem diagnostico fechado, ela tinha muitas características da síndrome.  Cumpri minha rotina naquele dia e percebi que ela mexia comigo de um jeito que eu não sabia explicar. Passaram-se os dias e eu me sentia cada vez mais ligada a ela, mesmo quando não era escalada para cuidar dela e passava o dia longe dela com outras crianças, me sentia conectada a ela e nunca ia embora sem dar nela um beijinho em sua mãozinha.

Para minha angústia nosso tempo ali tinha acabado, pois iríamos para outro campo de estágio. Hora da despedida, uma a uma fui me despedindo ate chegar nela, e agora? Como me despedir se meu coração não quer e não deixa? Peguei a no colo, ela me olhou intensamente e com os olhos marejados minha despedida com ela foi a seguinte: “Não sei o que está acontecendo, se isso é acaso ou o que o destino  escreveu para nós, mas prometo nunca te abandonar!”

Sai sem conseguir conter as lágrimas, sentia em meu coração que um pedacinho de mim ali ficara. No caminho pra casa encontrei o Daniel, meu esposo, que sentia minha angustia e perguntou o que havia acontecido. Pedi para ele não falar nada e apenas me ouvir: “ Sei que temos uma família linda e que você operou assim que o Pedro nasceu porque não queríamos mais ter filhos, já pensei que posso estar louca ou carente por passar tanto tempo fora, mas conheci uma criança da qual sinto uma ligação imensa e não posso abandoná-la, não sei o que ela pode ter, não sei o quanto ela vai viver, não sei os comprometimentos que ela possa vir a ter, não consigo explicar e não sei que esta acontecendo, mas não posso abandoná-la “. Ele me olhou com um sorriso singelo, me beijou a testa, me abraçou, olhou em meus olhos e disse: Não vou te chamar de louca ou nada parecido. Vamos fazer o seguinte, me leve para conhecê-la e ai te falo o que penso.

Alguns dias depois fomos à instituição visitá-la e lá estava aquele pacotinho cor de rosa deitadinha no berço com seus dedinhos na boca (ela sempre usava rosa por causa de seu cabelo curtinho era confundida sempre com menino). Ele se aproximou e ela imediatamente olhou para ele. Eu a tirei do berço dei um beijo e coloquei no colo dele. Quando ele olhou para ela, ele sentiu que algo inexplicável acontecera. Quem era aquela menininha com olhar tão doce que falava com nossos corações? Saímos de lá e conversamos muito por vários dias. Falamos sobre ter um 4° filho, sobre os medos, sobre as inseguranças, sobre as incertezas e percebemos que ou estávamos loucos ou o destino realmente estava nos unindo, pois não poderíamos deixá-la ali.

Dias depois conversamos com as crianças e perguntei o que eles achavam sobre ter uma irmã adotiva. Expliquei sobre a adoção, sobre a síndrome, sobre ela necessitar de mais atenção de todos nós, que ela não teria tratamento diferente, mas que exigiria mais um pouco de cuidados e nada fez diferença para eles que prontamente  quiseram conhecê-la.

Foto acervo pessoal de Helen Criss.

Levamos as crianças à instituição naquela mesma semana. Quando chegamos, ela estava num balancinho no cantinho. Eles sentaram-se ao redor dela e ela olhou todos e deu um sorriso. Olhei os 4 ali conectados como se já se conhecessem a vida toda, meu coração batia tão forte e a emoção tomou conta de mim. Ali percebi que era um reencontro, um resgate de almas. Agora não tinha mais dúvidas, entraria com o processo de adoção.

Quando abrimos para a família sobre a adoção de uma criança especial veio a divisão, uns apoiavam outros eram totalmente contra, mas todos tinham a mesma opinião, éramos loucos…

Loucura amar alguém sem explicação? Loucura dar um lar e uma família para um bebê que só conhecia o abandono? Loucura parar mais uma vez a vida pessoal e profissional por uma maternidade inesperada? Loucura enfrentar uma gestação apenas no coração sem saber o que cada dia reservaria?

Sim, é uma loucura, mas foi a loucura mais doce e amorosa que eu fiz…

Sou louca sim por amar, cuidar e proteger esse pedacinho de mim que apenas foi gestada em outra barriga, mas que o destino se encarregou de providenciar o nosso reencontro e unir os nossos corações…